Nosso sucesso particular

Nosso sucesso particular

O texto de hoje foi feito pelo Pedro Schmaus de Gama no DF que é quem escreveu um dos melhores textos que já li na vida e não me canso de compartilhar: “Para alguns viajar é sempre caro demais”  publicado no Sedentário & Hiperativo.

Nosso sucesso particular.

Conheci o Kirby em um albergue na capital do Laos. Há dois meses ele trabalhava em uma lanchonete para juntar grana e seguir viagem. Tinha um jeito de hippie e impressionava a todos por sua alta estatura e carisma. Um dia trocamos uma ideia no saguão do albergue e descobri que Kirby era advogado. Entrara no mercado de trabalho pela porta da frente em um escritório renomado. Fez muito dinheiro no começo da carreira e sem dúvidas poderia ser considerado um sucesso profissional e financeiro. O problema é que aos 24 desenvolveu uma depressão profunda. Não sabia dizer a origem exata, mas em pouco tempo já vivia à base de remédios. Para tentar amenizar o quadro o psiquiatra o aconselhou a viajar. Dopado pela medicação, Kirby dirigiu-se a uma agência de turismo e comprou um pacote para a Namíbia. “Juro que entrei no avião sem saber direito para onde estava indo”, disse gargalhando. “Só queria fugir”. Hospedou-se em um chalé no deserto, desfez as malas, tomou um banho e adormeceu. Quando acordou já era noite. “Saí na varanda e vi o céu. Você ja ouviu falar do céu no deserto da Namíbia? Lá não tem luz artificial. É possível ver o Universo com total nitidez”.

Kirby surtou. Era como se tivesse entendido naquele instante o objetivo de sua vida. “Quando vi aquele céu cheio de estrelas nunca mais me senti infeliz”. A viagem que deveria durar apenas uma semana prolongou-se por dois meses. Ao voltar para casa pediu demissão e avisou a amigos e familiares que ia cair na estrada. A nova vida trouxe muita felicidade e também novos desafios. O jovem advogado nunca mais tomou remédio, mas a grana que antes sobrava agora faltava. Nada que o desanimasse. “Eu não me importo com isso porque percebi que cada um tem um tipo de felicidade. A minha fonte de alegria é vagar por aí conhecendo o mundo. A grana é necessária, mas não interfere muito. No fim eu sempre consigo algum dinheiro e vou seguindo”. O que lhe incomodou mesmo foram os julgamentos das pessoas. Alguns amigos disseram que ele estava fazendo bobagem e não aprovaram sua decisão. “Eles perguntavam como eu viveria sem trabalho fixo, mas a questão não era essa. Acontece que eu não era feliz e por sorte tinha achado algo para me alegrar, isso deveria ser o mais importante”.

As críticas à Kirby não levavam em conta se o rapaz era infeliz dentro do ideário de sucesso imposto por sua sociedade. Todos ainda pediam que ele se retornasse ao status e estabilidade que o dinheiro proporciona, mesmo que isso lhe rendesse uma vida triste. Essa ideia está completamente enraizada na consciência da maioria das pessoas,
apesar de ser apenas uma opção entre várias. De algum modo somos criados para seguir um roteiro que nos transforme em pessoas bem-sucedidas do ponto de vista material. Somos levados a escolher uma carreira lucrativa para assim alcançar o sucesso financeiro. Nos vendem a ideia que um belo salário traz a segurança e o reconhecimento necessários para encontrarmos a felicidade. Não questionamos essas premissas porque quase todos que conhecemos acreditam nelas e não queremos ficar de fora.

O ser humano é um animal carente da aprovação de seus pares e incrivelmente afeito ao comportamento de bando. Sua ânsia por aceitação social o leva a todo tipo de conduta irrefletida. Qualquer ocorrência de linchamento ou tumulto pode explicar bem essa questão, mas um caso mais singelo é visto no programa estadounidense Candi
Camera. Em 1962 eles produziram uma pegadinha chamada Face the Hear. Nela um elevador era ocupado por três atores contratados e um indivíduo que não sabia da brincadeira. Lá dentro – em vez de olharem para a porta, o mais comum nessas situações – os figurantes viraram-se para o fundo do elevador. Ao perceber a conduta estranha das outras pessoas, a “vítima” ficou imediatamente em dúvida. Não sabia se preservava sua individualidade e mantinha o hábito que julgava natural ou adotava a conduta dos demais. Depois de hesitar alguns segundos, o homem finalmente tomou uma decisão e virou-se também para o fundo do elevador, mesmo sem saber porque estava fazendo aquilo. Posicionar o dinheiro como única base do sucesso e da felicidade tem o mesmo fundamento da pegadinha. Não é obrigatório e talvez não faça qualquer sentido, mas é algo que se legitima na prazerosa sensação que surge quando ganhamos a anuência de quem nos rodeia.

Há quem questione essa necessidade de aprovação. São pessoas que optam por um modo de vida distinto daquele “sugerido” pelo roteiro. Suas metas não são medidas em cifras ou posses, mas em vivências. É verdade que pagam o preço de viverem à par do jogo. Precisam lidar com a falta de segurança da manada e com as ameaças de um futuro sem garantias. Acima de tudo necessitam de coragem para encarar o risco de partir para o desconhecido. Por outro lado encontram a alegria de uma existência soberana, a graça de traçar um caminho escolhido por si mesmo. São a prova que a felicidade não tem uma fórmula. Como bem me disse Kirby antes de continuar sua vida na estrada, “não há nada errado em ganhar muito dinheiro, mas é totalmente razoável pensar que existe gente que não quer isso como objetivo de vida. Eu encontrei minha felicidade. Há algum sucesso maior que encontrar a própria
felicidade?”.

Muito obrigado Pedro Schmaus!

 

Marcelo Góes
Marcelo Góes

Marcelo Góes realizou seu primeiro intercâmbio para Dublin na República da Irlanda aos 23 anos onde aprendeu inglês e teve a oportunidade de viajar por vários países da Europa.

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